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Tentativas de suicídio são evitáveis, e problema tem tratamento

No Ceará, entre 2015 e setembro deste ano, foram registrados 2.866 suicídios. Mas a questão de saúde pública não é um mal intratável. Pelo contrário. Cuidados concretos evitam que pessoas voltem a atentar contra a própria vida

“Minha vida não vale a pena”. “Não aguento mais essa vida”. “Queria dormir até meus problemas acabarem”. Frases fortes carregadas de pedidos de socorro. Indícios de alerta sobre um mal que, entre 2015 e setembro deste ano, acometeu 2.866 pessoas no Ceará: o suicídio.

No entanto, apesar de a situação ser complexa e o problema multifatorial, o comportamento de pessoas que atentam contra a própria vida não é um “mal intratável”. Pelo contrário. Estratégias e ações concretas evitam suicídios. Para isso, profissionais alertam que é preciso fortalecer instituições como unidades básicas de saúde e escolas, locais onde a percepção sobre a existência do problema pode ser incrementada e a efetividade do tratamento ampliada, salvando vidas.

Quem passa por momentos de fragilidade, na qual o desejo de violar a própria vida se manifesta, precisa, antes de tudo, de cuidados. Evitar suicídios, explica o psiquiatra, professor do Departamento de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenador do Projeto de Apoio à Vida (Pravida) Fábio Gomes de Matos, é atuar para tratar aquilo que tem provocado esse sentimento.

“A pessoa não é suicida. Ela está em uma situação de ideia suicida. Usualmente, esse sentimento surge ligado a distúrbios mentais como depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia, boderline. Tratar as pessoas com esses transtornos diminui a possibilidade de o suicídio acontecer”

O comportamento suicida é uma conjunção de fatores biológicos, culturais e socioambientais. Para o psiquiatra e diretor clínico do Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto, em Messejana, Raimundo Araújo Melo, as tentativas de suicídio envolvem, de modo geral, duas condições: o desespero e a desesperança.

No primeiro caso, são tentativas impulsivas. Diante de algum conflito circunstancial, a pessoa age de forma extremada e atenta contra si mesma. Em muitas situações, reforça o médico, resolvido o problema, a pessoa não tentará novamente.

Em outros cenários, afirma o médico, há um “amadurecimento da ideia de suicídio”. Essas ocorrências são estados mais crônicos e relacionados a problemas mentais. “Mas essas condições têm tratamento. Seja com o uso de medicamentos, de psicofármacos ou seja por meio de psicoterapias individuais e de grupo”, esclarece.

“Não falamos propriamente em cura, mas em controle. É importante a assistência médica, psicológica e das equipes de saúde. Que a pessoa possa ter acesso desde o posto de saúde, passando pelo Caps (Centro de Atendimentos Psicossociais) e das emergências como o Hospital de Saúde Mental e as Upas (Unidades de Pronto Atendimento), quando há alguma tentativa”.

O coordenador do Pravida, Fábio Gomes, reitera a necessidade de garantir acesso e atendimento na rede de saúde. “Se o infarto é uma emergência médica, na saúde mental, o suicídio equivale. É uma situação que você precisa tratar de imediato. Não tem como tentar uma consulta e esperar três, quatro meses. Precisamos colocar o suicídio dentro da perspectiva de prevenção. Se não tratar, as pessoas vão tentar de novo”, destaca.

Capacitação

No Ceará, o número de suicídios, segundo dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade publicizados pela Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), cresceu nos últimos anos. Em 2015, o Estado teve 563 ocorrências. Em 2018, foram 649. A condição, enfatizam os profissionais, não tem a ver com coragem ou ausência dela. Nem tem relação com fraqueza. É um problema de saúde, no qual as pessoas acometidas emitem sinais. Para identificar esses vestígios, os profissionais da saúde precisam de formações aprimoradas.

“Há, pelo menos, três perguntas básicas que fazemos no consultório e todos os profissionais deveriam estar ligados. Quais são seus planos para o futuro? Sua vida vale a pena ser vivida? E, se a morte viesse hoje, ela seria bem-vinda para você? As respostas dessas perguntas são indiciárias da necessidade de alerta”, explica Fábio.

Estratégias

A psicóloga, professora da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e integrante da Comissão Estadual Intersetorial de Prevenção ao Suicídio, Alessandra Silva, hoje desenvolve três ações específicas e contínuas de prevenção ao suicídio no Estado. Essas iniciativas, relata a psicóloga, ocorrem em dois níveis: um de prevenção universal – feita para a toda a população, com campanhas de conscientização, por exemplo, – e outra atuação seletiva para grupos de risco.

O projeto “Guardiões da Vida”, realizado pela Uece em parceria com Ministério Público Estadual, é uma ação do eixo mais amplo. A iniciativa oferta formação para profissionais da secretarias de educação, saúde, segurança e o público em geral. “É formação para pessoas leigas, com apresentação das teorias, fatores de proteção e de risco para que as pessoas possam desenvolver uma escuta minimamente qualificada”.

Já nas iniciativas específicas, há o “Guardiões da Vida nas Escolas”. O projeto ocorre em 15 unidades da rede pública estadual. “Os guias de prevenção ao suicídio recomendam que a escola é o espaço de prevenção por excelência”, reforça a professora. As ações desenvolvidas por universitários voluntários em parceria com funcionários e estudantes têm surtido efeito.

Os universitários da Uece passaram a acompanhar sistematicamente os estudantes, em um trabalho contínuo. “Pegamos os adolescentes que estavam em risco nessas escolas, formamos grupos de 20 a 25 adolescentes e passamos a acompanhá-los para trabalharmos espaços de escuta, esperança, autoestima, relações interpessoais e em um ano e meio conseguimos abortar 67 tentativas de suicídio”, garante Alessandra.

+ Onde procurar ajuda?
> Centros de Atendimentos Psicossociais (CAPS). Publicado no Diário do Nordeste.