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Jovem, negro e da periferia é o perfil de quem mais morre no CE

Recentemente, o perfil da maioria das vítimas assassinadas no Ceará foi delimitado pelo Governo estadual. Homens negros, de 15 a 29 anos de idade, com baixa escolaridade e renda compõem a maior parte das estatísticas dos Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs), que, em 2017, ultrapassaram todos os registros dos anos anteriores no Estado.

Apesar da mudança no retrato e da quebra de estereótipos de quem mora em áreas críticas em relação à violência, o jovem negro permanece como alvo principal da hostilidade proveniente da violência. Conforme o relatório sobre o diagnóstico socioeconômico e criminal divulgado pelo Governo, no Nordeste e, principalmente, no Ceará há uma maior incidência de mortes dentro deste perfil.

Os dados do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência mostram que, de janeiro a julho de 2017, 522 adolescentes foram assassinados no Ceará. O balanço alarma para um agravamento da violência letal especificamente em Fortaleza, local onde houve um aumento de 71% de assassinatos de adolescentes em relação a igual período de 2016.

O relatório feito no ano de 2015 para subsidiar a elaboração do Plano de Ações Estratégicas do Pacto por um Ceará Pacífico traz que a correlação do percentual de população analfabeta e taxa de CVLI é a mais intensa encontrada entre todos os indicadores. Além disso, o diagnóstico apontou que, mesmo ao passar dos anos, o perfil dos homicídios no Estado permanecia o mesmo, sobretudo nas cidades de médio e grande porte e prevalecendo o uso das armas de fogo.

Territórios vulneráveis

Sabendo que está inserido no perfil de quem mais morre no Ceará, Leandro (nome fictício), de 19 anos de idade, lembra que cresceu cercado pelo aumento na violência no bairro Bom Jardim. “É comum ver jovem morrer”, diz. Leandro lembra que parte dos amigos que estudaram com ele há anos foram assassinados e se tornaram estatísticas.

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“O crime abraça os jovens que moram nas periferias. Chegam e colocam uma arma na mão dele. Dão poder. O conflito entre as facções traz medo até de andar nas ruas de onde eu cresci”, fala o morador do Bom Jardim.

Iago (nome fictício), 18, diz que no bairro Henrique Jorge não é diferente. Segundo ele, faltam oportunidades mais atraentes do que as dadas pelo ‘ mundo do crime’.

“O jovem da periferia é excluído. Parece que, porque mora em tal bairro, já não pode fazer algo. A gente vê os colegas serem assassinados. Tem medo de ir na esquina porque sabe que alguém morreu lá, ontem”, conta Iago, lembrando que há dois anos esteve internado em um Centro Educacional.

O diagnóstico do Governo do Estado do Ceará apontou que 44% dos assassinatos acontecem em 17 dos 119 bairros da Capital. Já em Caucaia, Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), 87% dos adolescentes foram executados nos bairros onde residiam.

Segundo o diagnóstico, também em Caucaia, 60% dos adolescentes mortos já haviam sofrido ameaças. Isso mostra que, em determinadas vezes, o homicídio é consequência de conflitos banais iniciados por desentendimentos pontuais. Na Capital, 64% desses jovens executados já tiveram amigos ou familiares assassinados.

O membro do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, Joaquim Araújo, atua no Bom Jardim diretamente com jovens e famílias ameaçadas devido ao tráfico de drogas. Segundo ele, no bairro que já foi palco de uma chacina em 2017, há constantes mobilizações realizadas por voluntários na tentativa de resgatar jovens do mundo do crime.

Para Araújo, o Ceará Pacífico é um dos programas mais interessantes lançados pelo Governo para combater os índices crescentes de homicídios. Mas, segundo ele, para que os números caiam é preciso fortalecer e efetivar ações e articular as secretarias estaduais e municipais.

“Existe uma juventude organizada que promove uma cultura de paz com ações dentro da comunidade. Tem uma juventude de difícil acesso, que está fora da escola e é sugada pelo mecanismo da violência. Esses, entendem que o único mecanismo deles é se agregar a um determinado grupo para ser alguém. No geral, todos eles têm medo de morrer. Eles querem um projeto lindo de vida, e algumas vezes, isso não chega a acontecer”, lembrou Araújo.

Insegurança

No primeiro semestre deste ano, o Comitê elaborou o relatório Trajetórias Interrompidas. O documento também traz dados alarmantes com relação à insegurança vivida pelos jovens. Conforme o relatório, Fortaleza lidera a expectativa de homicídios de jovens de 12 a 18 anos até o ano de 2021.

Na última terça-feira (5), a reportagem entrou em contato com a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) a fim de entrevistar alguma fonte oficial sobre o perfil de quem mais morre no Ceará e quais as ações para combater a violência. No entanto, até o fechamento desta matéria, não havia obtido nenhuma resposta.

Defensoria cria programa para acolher vítimas

No intuito de mostrar aos jovens da periferia que existem caminhos diferentes da morte e prisão, a Defensoria Pública do Estado do Ceará criou, no segundo semestre deste ano, a Rede Acolhe. Vindo em contribuição ao Ceará Pacífico, o programa visa ainda auxiliar famílias que perderam jovens para a violência.

De acordo com a defensora pública Gina Moura, enquanto os órgãos de segurança apresentaram propostas de repressão ao crime, a Defensoria pensou no lado das vítimas. Para Gina, o trabalho é importante para que a família não cometa outros crimes na intenção de revidar.

“A gente viu que muitas famílias não procuravam nenhuma instituição depois das mortes e nenhuma instituição ia até elas. Muitos pais que têm um filho jovem morto, adoecem. As consequências do luto são, principalmente, nas mães. Quando a gente chega em uma família é criado um vínculo e essas mães deixam de se sentir desamparadas”, conta a defensora pública.

Hoje, a Rede Acolhe atua, principalmente, no Vicente Pinzón, Bom Jardim e Barra do Ceará. Nos locais, são feitos trabalhos de sensibilização. Ao observar que, em uma só família, há mais de um jovem assassinado e, entre os que restaram, há ameaçados, o programa incluiu uma proposta preventiva.

“Já atendemos família que três adolescentes foram mortos e o quarto estava sob ameaça. Às vezes, é um irmão que presenciou o crime e é o próximo alvo. Pelos dados, a gente percebe que costumam ser jovens de 16 a 24 anos de idade e filhos de mães jovens. Essa mãe tem um papel central na família. Quando um filho morre, há descuido aos demais”, lembra Gina.

As famílias que se encaixam no perfil de atendimento da Rede Acolhe e não foram encaminhadas ao programa, podem procurar, diretamente, a Defensoria Pública do Ceará, por meio do Núcleo de Assistência ao Preso Provisório e às Vítimas de Violência (Nuapp). O equipamento está localizado no bairro Engenheiro Luciano Cavalcante.

Diário do Nordeste