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O raio X da decisão de Hamilton e da Mercedes em devolver o pódio para Bottas

O raio X da decisão de Hamilton e da Mercedes em devolver o pódio para Bottas 

Não é preciso ir longe. No GP de Mônaco, a Ferrari antecipou o pit stop de Kimi Raikkonen para Sebastian Vettel ultrapassá-lo a fim de vencer a corrida. Neste domingo mesmo, no Circuito Hungaroring, em Budapeste, o finlandês era o mais rápido na pista, até porque Vettel estava com o volante desalinhado, e recebeu a bandeirada de novo em segundo, atrás de Vettel. Raikkonen não só não procurou ultrapassá-lo como o defendeu do ataque de Lewis Hamilton, da Mercedes. Em resumo, a Ferrari centraliza todos os seus interesses no campeonato em um único piloto, Vettel.

O caso da Mercedes é bem diferente. A luta é aberta entre os seus pilotos. No GP da Hungria, neste domingo, a F1 assistiu a um exemplo de lisura e desprendimento raras vezes vista na competição. Na 34ª volta de um total de 70, Vettel, líder desde a largada, Raikkonen, segundo, Valtteri Bottas, da Mercedes, terceiro, e Hamilton, quarto, já haviam feito o seu pit stop, único deles na prova. Como não havia parado ainda, Max Verstappen, da RBR, liderava a 11ª etapa do calendário. Todos substituíram os pneus supermacios do início da corrida pelos macios novos. A Pirelli distribuiu, ainda, os pneus médios.

Max estava 10s037 na frente de Vettel, mas teria, como explicado, de fazer o pit stop e cumprir 10 segundos de penalização por ter colocado o próprio companheiro, Daniel Ricciardo, para fora da pista e da competição, na curva 2, depois da largada. Já Vettel estava 1s124 na frente de Raikkonen que, por sua vez, mantinha Bottas 3s805 atrás, com Hamilton logo a seguir, 1s425. A diferença de Hamilton para Vettel, portanto, era de 6s354.

O piloto inglês viu que com os pneus macios seu W08 Hybrid tornara-se bem mais rápido, a Ferrari não tinha mais a vantagem do começo para a Mercedes, com os pneus supermacios. E entre a velocidade que podia impor e a de Bottas, Hamilton também entendeu que poderia ser mais veloz, a ponto de pensar em lutar com Raikkonen, segundo, e Vettel, líder. A diferença dele para o alemão, como mencionado, não era proibitiva, pouco mais de seis segundos.

A Mercedes tinha uma séria dificuldade desde o início da competição: os sistemas de rádio e de telemetria funcionavam precariamente. Hamilton pediu à equipe para que solicitassem a Bottas facilitar a ultrapassagem, pois estava mais rápido.

“Acreditava que poderia vencer a corrida. Disse, ainda, que no caso de eu não conseguir ultrapassar os pilotos da Ferrari eu daria a posição de volta a Valtteri”, explicou Hamilton. Toto Wolff e o especialista em estratégia da Mercedes, James Vowles, estudaram a progressão da prova e viram ser possível. Concordaram. Bottas fez a sua parte também. Na 45ª volta, o finlandês liberou a passagem no fim da reta dos boxes.

“A equipe me avisou que eu teria a posição de volta se o plano de Lewis não desse certo, a quem sou muito grato”, falou Bottas.

Hamilton chegou a estar a 757 milésimos de Raikkonen, na 54ª volta, podendo usar, portanto, o flap móvel (DRS) para tentar a ultrapassagem do escudeiro de Vettel e assumir o segundo lugar. Se isso acontecesse, como havia ainda 16 voltas para o fim, Hamilton tinha chances boas de lutar e até vencer Vettel, em decorrência deste precisar pilotar com o volante virado.

Mas para provar que correu com reservas, não tentou assumir a liderança para vencer o GP da Hungria, Raikkonen acelerou na volta seguinte e abriu uma diferença de 2s007, ou seja, foi 1s250 mais rápido que Hamilton.

Wolff viu isso e comentou na entrevista, uma hora mais tarde. “A Ferrari não expôs todo o seu potencial, Sebastian tinha dificuldades com o carro. Kimi, quando precisou acelerou para valer e abriu vantagem. Uma prova de que a Ferrari não exigiu tudo é o fato de Fernando Alonso (McLaren-Honda) ter feito a melhor volta do GP”, disse o diretor da Mercedes.

Na 69ª volta o espanhol registrou 1min20s182, à média de 196,6 km/h. E não é que Alonso tenha parado no fim para trocar os pneus. Havia feito o pit stop na 35ª volta, quatro somente depois de Hamilton e eram os mesmos macios novos.

Na 62ª volta, a oito da bandeirada, Hamilton ainda tinha esperança de ultrapassar Raikkonen, pois reduziu a diferença para 1s140. Mais um décimo e poderia usar o DRS de novo. Pois o finlandês acelerou mais uma vez e duas voltas depois já estava 2s571 na frente.

Resultado: o piloto da Mercedes desistiu do plano de tentar vencer Raikkonen e Vettel. Como tinha de devolver a posição a Bottas, necessitava administrar a situação, por uma questão principal: “Max vinha muito rápido, reduzindo a diferença a cada volta para Valtteri, o time me informou. Eu reduzi a velocidade para Valtteri encostar em mim e os retardatários que eu tinha ultrapassado queriam me ultrapassar, eu fiquei lento”, contou Hamilton. “Foi bem difícil.”

Quando Hamilton decidiu mudar de ideia, na 64ª volta, restavam seis voltas e Bottas estava em quarto, 4s838 atrás dele, mas com Max distante apenas 2s613. Mais: o holandês havia estendido a permanência na pista ao máximo. Seu pit stop foi na 42ª volta, enquanto Bottas, ainda na 30ª. Os pneus macios do piloto da RBR estavam em bem melhor estado.

“Começamos a estudar como fazer Lewis dar o terceiro lugar de volta para Valtteri sem permitir que Max o ultrapassasse. Ele estava na traseira de Valtteri, o que seria muito ruim para nós. Entendemos que a melhor solução seria Hamilton diminuir a velocidade de forma a que Bottas encostasse nele somente na última curva, na última volta. Estávamos correndo o risco de Lewis perder mais dois pontos”, contou Wolff.

Bottas estava preocupado. Sabia que o time e Hamilton procuravam levá-lo ao pódio, cumprir a promessa. “Como me encontrava um pouco longe de Lewis e Max vinha atrás, pensei que talvez não desse, o que obviamente não gostaria nem um pouco”, comentou o finlandês.

“Quando vimos nos metros finais que daria certo, ficamos aliviados”, afirmou Wolff. “Mas vocês viram a diferença de Max para Lewis? Três décimos de segundo (391 milésimos).”

Enquanto na Ferrari tudo é feito para que Vettel some o máximo de pontos possível, Hamilton e a Mercedes não hesitaram em cumprir o acordo sugerido pelo piloto com mais chances de lutar com Vettel pelo título, o próprio Hamilton, correndo o risco ainda de perder mais dois pontos por Max o ultrapassar. Em vez dos 12 pontos do quarto lugar somaria 10 do quinto.

Com o resultado do evento no Circuito Hungaroring, Vettel ampliou a diferença de um ponto para 14. O alemão da Ferrari soma, faltando nove etapas, 202 pontos enquanto Hamilton tem 188. Bottas sem a seguir, com 169, apenas 19 a menos de Hamilton.

Sou um homem de palavra

 Lewis Hamilton no GP da Hungria de 2017 (Foto: Reprodução)

O piloto inglês: “Era uma promessa. Estamos ainda mais unidos agora, seremos mais fortes. Eu disse desde o começo do ano que quero vencer o campeonato, mas da maneira correta. E hoje fiz o que considero ser o certo. Foi uma decisão mais do coração do que da mente, mostrei que sou um homem de palavra, que sabe trabalhar em equipe. Eu trabalho melhor do que nunca com Valtteri”.

Hamilton, numa fase mais espiritualizada da vida, disse, ainda: “Acho que quando você faz boas coisas, boas coisas voltam para você. Eu e Valtteri temos o maior respeito um pelo outro. Ele fez o que pediram e eu também”.

Wolff comentou ter “plena consciência” de que esses três pontos poderão fazer muita falta no fim da temporada. “Se perdermos o mundial por causa deles, vão dizer que deveríamos, em Budapeste, ter mantido a posição de Lewis.”

Ganhar de forma justa

 Toto Wolff, chefe da Mercedes, entre Lewis Hamilton e Valtteri Bottas (Foto: Getty Images)
O dirigente austríaco, como Hamilton, foi fundo na abordagem do tema. “Essa é a nossa filosofia, ela nos deu seis campeonatos (três de pilotos e três de construtores) e acreditamos que nos dará mais nos próximos anos, é como o time e os pilotos funcionam. A longo prazo, com essa filosofia vamos mais ganhar do que se fizéssemos diferente.”

Mais de Wolff sobre o projeto da Mercedes para a F1: “Não estamos aqui apenas porque somos apaixonados, investimos porque pensamos que promove nossa marca, ajuda a vender carros, é um projeto de longo prazo. Podemos, sim, tomar decisões que facilitariam vencer o mundial, entrarmos para a história. Mas acreditamos que o importante é vencer da maneira correta”.

Confessa algo inesperado: “Às vezes, essa maneira correta é extremamente difícil de ser adotada. Esse foi o caso hoje, pode acreditar”.

O GloboEsporte.com pediu a Vettel, na coletiva da FIA, para comentar a decisão de Hamilton e da Mercedes de devolver a posição para Bottas, algo que pelo histórico de preferências da Ferrari, sempre por apenas um de seus pilotos, representaria algo impensável.

O piloto alemão, depois de vencer pela 48ª vez na brilhante carreira de tetracampeão do mundo, pareceu não compreender o que a questão propunha. “Eu não acho que foi a primeira vez que alguém fez isso. Obviamente se funciona, fantástico, mas se não funciona você tem de devolver a posição. Acho que é algo linear, direto. Eu não estou certo de ter compreendido bem a pergunta.” Pelo visto ou não entendeu ou não quis entender.

A F1 só volta a disputar um GP dia 27 de agosto, no lendário Circuito Spa-Francorchamps, na Bélgica. Mas terça-feira e quarta-feira agora as dez equipes vão treinar na mesma pista do evento deste fim de semana. Muitos jovens pilotos que em breve poderão estar na F1 foram escalados, como a nova estrela do automobilismo, o monegasco Charles Leclerc, 19 anos, líder com enorme vantagem da F2. Ele vai pilotar o carro que Vettel usou para vencer a corrida neste domingo, por ser da academia da Ferrari. Tem grandes chances de ser piloto da Sauber em 2018.

Depois dos dois dias de treino, todos estarão de férias obrigatórias de duas semanas, controladas pela FIA. As sedes das escuderias devem permanecer fechadas.

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