Ubajara Notícias

Cearense que começou com lava rápido abre restaurante em Miami incentivado por Obama

Afrânio Barreira comanda 26 restaurantes em todo o Brasil (FOTO: Divulgação)

A história de Afrânio Barreira é inspiradora. Quem conhece um pouco de empreendedorismo certamente já ouviu o seu nome.

O engenheiro cearense, de 60 anos, começou com lavagem de carros, passou para pastelaria, mas foi com uma rede de restaurantes de frutos do mar que se tornou milionário.

Proprietário do Dom Pastel e Coco Bambu, Afrânio comanda 26 restaurantes em todo o Brasil. Nesse ano, o empresário ganha o mundo a partir da abertura de um Coco Bambu em Miami, nos Estados Unidos.

Com investimento de US$ 10 milhões (cerca de R$ 35 milhões), será o maior restaurante em Miami Beach, cujos sócios são todos engenheiros e, claro, cearenses.

Com sotaque nordestino e rico de experiências, em solo americano Afrânio Barreira teve a oportunidade de conhecer o então presidente Barack Obama e até recebeu a chave da cidade de Miami. As conquistas não pararam por aí, palestrou ainda sobre empreendedorismo nas três principais universidades americanas Harvard, MIT e na Columbia University NY.

Conquistando mais de 10 milhões de pessoas anualmente e ofertando mais de 4 mil empregos diretos e indiretos em todo o mundo, o cearense ainda quer mais. “Eu me sinto lisonjeado. Estamos muito satisfeitos com o nosso retorno, mas ainda há sempre espaço para melhorar”.

Confira entrevista completa com Afrânio Barreira, o cearense que ganhou o mundo:

Tribuna do Ceará: Você é engenheiro, mas alcançou grande sucesso empresarial com uma rede de restaurantes de frutos do mar. Conta um pouco para gente da sua história.

Afrânio Barreira: Sou cearense, tenho 60 anos, engenheiro de formação, mas empresário por vocação. Já tive lava-jato de carros e até empresa da minha área de construção. Mas tudo começou a mudar mesmo com uma pastelaria, em 1989.

Eu e minha esposa, Daniela Barreira, criamos o Dom Pastel, que seria o marco inicial no negócio de restaurantes. Após uma reforma na casa onde foi a residência do meu avô paterno, Raimundo Pinheiro Barreira, transformamos a mansão em um pequeno open mall, alugando suas salas e lojas. Na lojinha da esquina abriu o Dom Pastel. Ele já nasceu como um negócio diferenciado, que logo despertou a atenção da população local, abrindo caminho para o que viria a ser o Coco Bambu.

Tribuna do Ceará: E como foi a trajetória de Dom Pastel até o Coco Bambu?

Afrânio: Durou alguns anos, mais precisamente 12 anos. Em 2001 nasceu o primeiro restaurante Coco Bambu. Ele fica até hoje lá, no Bairro Meireles, em Fortaleza, com uma decoração praiana-tropical. Lá servimos praticamente tudo, de tapioca, pizza e crepes, que se tornaram um sucesso imediato não apenas para os turistas, mas também ao nosso público local.

Tribuna do Ceará: E quando partiram para expansão pelo Brasil?

Afrânio: A partir de 2005, quando abrimos em Salvador. Somando aos quatro de Fortaleza (CB Beira Mar, CB Meireles, CB Sul e Dom Pastel – Coco Bambu), atualmente temos 26 restaurantes pelo Brasil (BA – CB Bahia, DF – CB Águas Claras, DF – CB Brasília Shopping, DF – CB Lago Sul, ES – CB Vila Velha, GO – CB Flamboyant, MA – CB São Luís, PE – CB Recife, PI – CB Teresina, PR – CB Curitiba, RS – CB Porto Alegre, SP – CB Anália Franco, SP – CB Anhembi, SP – CB Campinas, SP – CB JK, SP – CB Market Place e SP – CB Ribeirão Preto). Hoje podemos dizer que ganhamos o mundo com o vindouro Coco Bambu Miami, a ser inaugurado em agosto deste ano.

Tribuna do Ceará: Por que o primeiro restaurante internacional da rede Coco Bambu será em Miami? Há quanto tempo existe esse projeto?

Afrânio: Simples, é uma cidade com grande presença de latinos, extremamente turística, e por ser um destino importante de brasileiros. Será o maior restaurante de Miami Beach, com capacidade para 500 lugares e que oferecerá um cardápio, ao mesmo tempo, tradicional nosso e com pedidos do local, como carnes e burgers. O projeto todo demorou três anos, desde a escolha do local, entrada de sócios, projeto aprovado e construção.

Tribuna do Ceará: Como foi o processo de abrir o restaurante em Miami? É mais dificultoso que no Brasil? Houve incentivo local?

Afrânio: Primeiro passamos por todo o processo normal de um empreendimento desse porte, da escolha do local, abertura de empresa, início de obras, finalização e contratação de pessoal. Lá a Prefeitura participa de todo o processo de fiscalização, dia a dia, de cada construção, e a rede Coco Bambu vê isso como positivo. Eles fazem o papel do agente fiscalizador do construtor, e estivemos sempre dentro da norma americana e dentro do prazo estabelecido. Além de todos os trâmites normais, houve a questão do local ser um prédio histórico, e nós o mantivemos. O prédio escolhido era uma escola local e, por isso, tinha alvará para funcionamento para tal propósito. Por isso, teve de se mudar a natureza de uso de espaço.

Pelas normas locais, é obrigatório consultar a comunidade a respeito da mudança do local, se eles acham que será bom para a comunidade, etc. O Coco Bambu participou de audiências públicas para explicar as vantagens do empreendimento ao local e, assim, a empresa foi aprovada. Pelo fato do teor histórico do prédio, foi dada a entrada no chamado “historic board”, em que tivemos de validar e nos adequar. Inclusive foram mantidas as linhas históricas de fachada, que estão tombadas, e também conservada a mesma cor de sempre.

Tribuna do Ceará: Quanto custará esse novo Coco Bambu, em Miami?

Afrânio: O valor de investimento é de US$ 10 milhões (cerca de R$ 35 milhões), mas o mais importante é que não há envolvido qualquer tipo de empréstimo bancário nem financiamento.

Tribuna do Ceará: Mas você tem sócios “locais” americanos? Como funciona esse negócio?

Afrânio: Não. Todos os sócios são brasileiros. O maior investimento é por parte da rede. Como de praxe, nós mantivemos a mesma estrutura societária dos demais restaurantes em todo o Brasil, onde cada unidade possui de dois a três sócios que detêm de 10% a 12% do negócio e são responsáveis por acompanhar o dia a dia da operação. Além da holding local, liderada por mim e outros participantes, o projeto é feito em associação com três cearenses que estavam em SP e decidiram empreender conosco e morar em Miami, são eles Leonardo Pessoa, Marcelo Gomes e Felipe Luna. A curiosidade é que, assim como eu, todos são engenheiros e cearenses.

Tribuna do Ceará: Como é ser um investidor brasileiro nos EUA? Há incentivos locais?

Afrânio: Eu me sinto lisonjeado. Mesmo antes de abrir o empreendimento em Miami, o primeiro da rede em solo internacional, tive três momentos bem significativos em solo americano. O primeiro ocorreu ao final de 2015, quando eu conheci o então presidente americano, Barack Obama. Junto com outros investidores estrangeiros, eu era um dos convidados do “Select Usa “em Washington. No evento, o presidente palestrou sobre a importância de fomentar e incentivar novos negócios nos EUA. Já em 2016, eu e os sócios do Coco Bambu EUA recebemos a chave da cidade de Miami, das mãos do prefeito da cidade de Miami Dade. Para fechar, também em 2015, fui convidado para palestrar sobre empreendedorismo nas três principais universidades americanas, Harvard, MIT e na Columbia University NY.

Tribuna do Ceará: Tem uma estimativa de retorno e números que possa passar da operação do Coco Bambu no Brasil?

Afrânio: São mais de 4 mil empregos diretos gerados. Os restaurantes Coco Bambu atendem mais de 10 milhões de pessoas por ano. Estamos muito satisfeitos com o nosso retorno, mas ainda há sempre espaço para melhorar.

Tribuna do Ceará: Há uma polêmica a respeito da importação dos camarões, pois os produtores cearenses reclamam do fato. O que há de verdade nisso?

Afrânio: O próprio Paulo Solmucci, presidente nacional da Abrasel colocou muito bem isso em um comunicado feito há dois meses. Em um cenário em que a produção interna não consegue suprir a demanda, o mercado de alimentação nacional buscou alternativas de importação de camarões para consumo humano, encontrando no Equador um mercado com capacidade de fazê-lo. É importante deixar claro que a solução encontrada é fazer a importação franqueada, em caráter exclusivo, aos camarões descascados, eviscerados e sem cabeça, impedindo qualquer possibilidade de contaminação dos viveiros e mananciais brasileiros.

Vamos continuar comprando de produtores locais, mas vamos ter também o incremento da importação, que já foi autorizada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que realizou uma análise de risco da importação deste produto nestas condições e emitiu parecer favorável. Importante lembrar que o camarão autorizado há ser importado do Equador para o Brasil é o mesmo camarão consumido nos Estados Unidos e na Comunidade Europeia, e que os que defendem a não importação estão apenas defendo um mercado fechado.

Tribuna do Ceará: A mancha branca ainda afeta o preço do camarão? A produção no Ceará está em queda ainda?

Afrânio: Em primeiro lugar, é importante pontuar que a produção nacional de camarões para abastecimento do mercado interno não só está estagnada há mais de uma década como vem sendo comprometida recentemente pela propagação do vírus da mancha branca.

Apesar de não causar qualquer dano aos consumidores, esse vírus tem alto impacto na capacidade produtiva deste mercado, já que a taxa de mortalidade é de, pelo menos, 40% dos camarões cultivados. As consequências são a redução da capacidade de entrega frente à demanda de bares, restaurantes, hotéis e supermercados, uma vez que a vazão do mercado interno é de 3 a 4 vezes maior do que a produção nacional, além de um aumento exponencial de custos, que não consegue ser absorvido pelo mercado da alimentação, em especial pelos bares e restaurantes.

Tribuna do Ceará: Os produtores de camarão comentam que o preço ia baixar após a Semana Santa, mas isso não ocorreu. Quanto está o preço do camarão hoje nos restaurantes?

Afrânio: O impacto no consumo já é sentido pelos estabelecimentos do setor de alimentação, que colocam em risco milhares de empresas, ameaça também milhares de empregos neste setor. Incontestavelmente, os preços continuam elevados. Não ocorreu ainda a coerente e devida redução dos preços do camarão mesmo após a Semana Santa. Noutras palavras, ainda há relativa escassez de fornecimento, principalmente do camarão acima de 18 gramas, e os preços atuais continuam cerca de 70% acima dos praticados no ano passado.

Tribuna do Ceará