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Jovem contraria versão da Guarda Municipal sobre abordagem violenta no Terminal do Siqueira

O jovem que aparece em um vídeo sendo puxado por guardas municipais e levando choques elétricos de um teaser em terminal de ônibus contraria a versão apresentada pela corporação. Victor Martins diz que resistiu à abordagem por ouvir gritos de socorro de um amigo dele, que já havia sido levado para a sala em que a Guarda Municipal de Fortaleza realiza procedimentos.

Ele nega fazer parte de um “rolezinho” no Terminal do Siqueira, conforme dito pelo diretor-adjunto da Guarda Municipal, inspetor Marcílio Távora. Segundo Victor, a confusão, ocorrida na última quarta-feira (21), teve início após o amigo dele interpelar guardas municipais que abordavam passageiros no terminal. “Por favor, aborda, mas não agride as pessoas”, teria dito o amigo, segundo Victor.

Ao terminarem a primeira abordagem, os guardas foram em direção aos dois, conta Victor. Primeiramente, teriam perguntado o que o companheiro de Victor tinha dito a ele. Em seguida, levaram esse amigo para a sala, onde teriam começado as agressões. “Recebemos uma denúncia de um assaltante de ônibus que tava com uma roupa igual a tua”, teria dito um dos agentes.

Já a Victor, os guardas teriam perguntado se ele tinha passagem pela Polícia. Quando souberam que ele respondia por posse de droga para consumo pessoal, os guardas pediram que Victor os acompanhasse até a sala para “averiguação”, diz o rapaz.

“Eu concordei. Quando cheguei perto da sala, eu escutei os gritos de meu brother. Eles abriram a porta e eu o vi sendo espancado, muita cacetada, na cabeça, chutes, murro… Muita péia ele estava levando”, afirma Victor. Foi aí que ele começou a gritar — “queria que juntasse gente para que parassem de bater no meu brother”. O vídeo, portanto, foi apenas uma fração ínfima de toda uma abordagem que durou cerca de 20 minutos, ele sustenta.

Victor acusa a Guarda de ter premeditado o caso por “marcação” pelo fato de eles fazerem poesia nos ônibus. “Eles pensam que pedimos dinheiro para poder usar drogas. Mas não: temos conta para pagar, aluguel… Naquela noite, íamos fazer o dinheiro para pagar um ultrassom, pois a namorada do meu amigo está esperando um filho, já com 6 meses de gestação”, diz Victor.

 

Em uma página no Facebook que organiza evento de protesto contra o episódio, foram feitos relatos de animosidade por parte da Guarda Municipal contra artistas urbanos. “Não é um fato isolado. A guarda está descontrolada”, é o mote da manifestação marcada para as 14 horas do domingo (25), no próprio Terminal do Siqueira. Foram lançadas ainda as hashtags #AGuardaJáMeAgrediu #AGuardaMeBateu para relatos de denúncias de violências do gênero. 

“Isso que acontece sempre com a gente. Aquele vídeo não mostra nem metade do que aconteceu. Já levei murro, tapa. Eles não respeitam”, acusa Victor. De acordo com o jovem, outros episódios de ameaças de agentes da Guarda contra seu amigo tinham acontecido anteriormente.

Procedimento policial

Os dois foram levados ao 11º Distrito Policial (11ºDP) e um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) foi lavrado — por desobediência, desacato e resistência, conforme o inspetor Marcílio Távora. Victor conta não ter tido como denunciar as agressões na delegacia. Ele também não fez ainda exame de corpo de delito. O Tribuna do Ceará apurou que o amigo de Victor registrou boletim de ocorrência sobre o caso na tarde desta sexta-feira (23).

Guarda Municipal
Em vídeo, o diretor-adjunto da Guarda Municipal afirma que o registro contra o rapaz é o recorte de uma ação da Guarda no Terminal do Siqueira. Na ocasião, segundo ele, a abordagem era contra um grupo de jovens que faziam o chamado “rolezinho”. “Um deles acabou se exaltando, não aceitou a abordagem dos guardas, acabou, de certa forma, incorrendo na desobediência, então, os guardas tiveram que intervir”, afirma o inspetor.

“Inicialmente, (a abordagem) se baseia na presença ostensiva da Guarda. Como não foi suficiente, os guardas verbalizaram, tentaram conter fisicamente, mas também não tiveram êxito e tiveram de usar a pistola de condutibilidade elétrica para fazer a imobilização do infrator”, pontua.

Conforme a Guarda, se a direção, após análise do relatório da ocorrência, vir a identificar excessos na abordagem, as devidas responsabilidades serão apuradas.

Tribuna do Ceará