Ubajara Notícias

Análise: A ‘ingenuidade’ de experientes raposas da política brasileira

RIO – A grave crise do governo Temer ganhou um novo verbete: ingênuo. O adjetivo foi autoaplicado por dois dos citados na delação de Joesley Batista, o presidente Michel Temer e o senador Aécio Neves (PSDB-MG). E usado em referência a um terceiro, o deputado afastado Rodrigo Rocha Loures, cujo mandato está ameaçado por um pedido de cassação apresentado ontem por três partidos.

 O ingênuo é aquele sujeito desatento à malícia, de atos inocentes. Um indivíduo que se deixa enganar por aqueles que o cercam. Será o caso?

Temer assumiu o mandato de deputado federal pela primeira vez em 1987 — quando Joesley, que segundo seu relato aproveitou-se de sua inocência, tinha apenas 15 anos. Desde então, liderou o PMDB, presidiu por duas vezes a Câmara dos Deputados e, quando chegou a hora, foi um hábil articulador do impeachment de Dilma Rousseff. Aécio Neves também teve cadeira na Câmara pela primeira vez em 1987, também presidiu a Casa e, por oito anos, governou Minas Gerais. É presidente do PSDB e estava no Senado desde 2011.

Por qualquer que seja o ângulo que se analise, é difícil imaginar que dois políticos desse calibre sejam definidos como ingênuos. É justamente o oposto disso, a astúcia, que coloca políticos no lugar em que os dois se colocaram, discutindo pagamentos ilegais, tráfico de influência e outras irregularidades.

O senador Roberto Requião (PMDB-PR) também deu a prerrogativa da ingenuidade a Rodrigo Rocha Loures, o deputado afastado que recebeu uma mala cheia de dinheiro, mas que disse só ter percebido do que se tratava na hora em que a abriu — desconfiou do peso, mas ficou na dúvida. Quão ingênuo alguém precisa ser para, depois de constatar que recebeu uma mala cheia de dinheiro, não ir imediatamente devolvê-la?

 

O presidente da República e o comandante do PSDB sabem muito bem quando a conversa descamba para o lado perigoso. Levando-se em conta os postos que ocupam na República, não seria necessário desconfiar de uma gravação oculta para rejeitar uma narrativa para lá de suspeita. Não saberiam dos riscos associados ao fato de compartilhar informações tão comprometedoras?

Foram ingênuos a este ponto?

Com tanta bagagem na arena política, Temer e Aécio não poderiam se deixar levar pela conversa do mercador.

Globo