Ubajara Notícias

Piranhas: A história por testemunha

Piranhas guarda histórias como a dos tempos do bando de lampião, narradas da boca dos mais velhos da cidade. Há também as que falam sobre o cantor altemar dutra, um apaixonado pela cidade muito antes da indústria cultural descobri-la a partir das filmagens como a de “bye bye brasil”, de cacá diegues, em 1982.

 

Também foi pertinho de Piranhas, em 1938, na grota de Angicos (Poço Redondo, Estado de Sergipe) que o cangaceiro mais famoso do Nordeste, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, foi morto, ao lado da sua companheira, Maria Bonita, pela volante do tenente João Bezerra. Toda a emboscada foi tramada em Piranhas, às margens do Velho Chico.

São histórias que ganham novo sabor quando narradas por Celso Rodrigues, 70 anos, que foi, quatro vezes, prefeito da cidade e testemunha de muitos episódios. Seu casarão construído no Século XIX, transformado hoje no Solar dos Rodrigues, também é espaço da memória da região. Sorriso aberto, sentado numa cadeira de balanço, bem ao estilo dos coronéis nordestinos, o ilustre morador desfia seu rosário de histórias para turistas e amigos.

Uma de sarapantar é a de Antônio Jacó, um dos integrantes da volante que matou Lampião e parte do seu bando, em Angicos. Após o massacre dos cangaceiros, os macacos (como eram chamados os soldados), roubaram todo o ouro e objetos de valor dos cangaceiros. Foi do parabélum de Jacó que saiu a bala que matou o cangaceiro Luiz Pedro, compadre e segundo homem de Lampião.

O passeio turístico mais famoso da cidade percorre veredas e leva à Grota do Angico – onde Lampião foi morto

Meses depois, Antônio Jacó fugiu para Goiás, onde montou um negócio de compra e venda de ouro. Chegou a voltar a Piranhas para rever parentes viajando num luxuoso Simca, carro jamais visto na região, espantando mais uma vez os moradores.

Ilustre admirador

Image-3-Artigo-2213798-1O cantor Altemar Dutra foi um fã ardoroso da cidade e, hoje, é adorado pelos piranhenses. Seu nome está fixado em bodegas, praças, pizzarias, barcos, avenidas, escolas e até em grupos de xaxado e de forró da região. Em uma das poucas praças da cidade, na orla do rio, foi erguida uma estátua em sua homenagem. Afinal, Altemar Dutra foi o primeiro nome famoso que descobriu o lugarejo, com sua paisagem rochosa, seus casarões dos séculos XVIII e XIX (estilo neoclássico) e a beleza do velho Chico, na época tão caudaloso quanto o mar.

Não tem um piranhense, velho ou novo, que não conheça o rei do bolero, cujas canções até hoje povoam o imaginário brasileiro. Foi em Piranhas que o intérprete de “Sentimental Demais” aprendeu a pescar. Altemar Dutra não passava um ano sequer sem visitar Piranhas. Chegava, armava a sua tenda próximo ao rio e passava horas pescando e bebendo. Não foram poucas às vezes que desmarcou shows, para desespero dos seus empresários, com o intuito de passar mais um dia às margens do Velho Chico.

A capela, localizada na área rural de Piranhas, foi uma das primeiras a ser erguida na região no século XIX 

Celso Rodrigues lembra que sua morte repentina, durante um show em Nova York, em 1983, abalou a pequena cidade. Então prefeito, ele mandou celebrar uma missa na Igreja principal – Nossa Senhora da Saúde, de estilo neogótico.

A cidade e o Imperador

Image-4-Artigo-2213798-1D. Pedro II é outra personagem inesquecível da cidade. Ali, afinal, tudo lembra o II Império. A cidade se consolidou como núcleo urbano na segunda metade do século XIX com o advento da navegação a vapor, em 1867, e a instalação da linha férrea, em 1881, quando vivenciou a sua primeira grande fase áurea como entreposto comercial na área sertaneja entre o baixo São Francisco e a cachoeira de Paulo Afonso.

Parte do trem usado na Ferrovia que ia para Paulo Afonso (BA) foi recuperada e exposta na Praça Altemar Dutra

O sobrado onde o Imperador pernoitou, em outubro de 1859, uma típica construção colonial foi totalmente restaurado, sendo hoje uma escola de música.

A principal via da cidade – que se desenvolveu a partir do relevo natural de suas colinas – chama-se também de D. Pedro II. O Imperador ficou encantado com a cidade lapinha, chamando-a de belo “entre montes”. Seu nome também foi dado a muitos estabelecimentos comerciais de Piranhas – pousadas e restaurantes, a maioria situada a poucos metros do São Francisco.

Diário do Nordeste