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Mexicanos judeus repudiam mensagem de Netanyahu sobre muro de Trump

Primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, em foto de arquivo (Foto: Baz Ratner/Reuters)

De sinagogas a lojas “kosher” e até a cúpula do governo da cidade, mexicanos judeus repudiaram o apoio do primeiro-ministro de Israel ao polêmico muro transfronteiriço proposto pelo presidente americano Donald Trump, uma postura, segundo eles, “vergonhosa”.

A rejeição pública se somou à posição da chancelaria mexicana, que na segunda-feira (30) pediu que Israel se desculpe pelo apoio que Benjamin Netanyahu expressou através do Twitter à construção do muro.

“O presidente Trump tem razão. Construí um muro ao longo da fronteira sul de Israel. Isso freou a imigração ilegal. Grande êxito. Ideia formidável”, escreveu o primeiro-ministro israelense no sábado (28).

Neste mesmo dia, o Comitê Central da Comunidade Judaica no México enviou um comunicado no qual se desvinculou da mensagem e rejeitou categoricamente a posição de Netanyahu.

Embora o governante israelense tenha afirmado que não se referiu ao México, a comunidade judaica lembrou a Netanyahu a tolerância e a solidariedade histórica do povo mexicano para com eles.

Os primeiros judeus chegaram ao México com os conquistadores espanhóis, no século XVI, mas muitos viveram na clandestinidade devido à perseguição da inquisição católica.

As comunidades contemporâneas chegaram no fim do século XIX procedentes do Mediterrâneo e do Oriente Médio, e este fluxo aumentou na primeira década do século XX devido aos conflitos, guerras e revoluções que afetaram a Europa.

“Lacaio de Trump”

Diante da polêmica, Netanyahu tentou acalmar nesta terça-feira os ânimos, afirmando que se trata de um “mal-entendido” e que as relações bilaterais “são mais fortes que qualquer divergência”.

Mas as explicações do primeiro-ministro israelense chegaram um pouco tarde, e personalidades de destaque da comunidade judaica mexicana já censuraram sua mensagem sobre o muro. “Netanyahu deve se desculpar com o povo mexicano por sua declaração infame”, escreveu na segunda-feira no Twitter o historiador mexicano Enrique Krauze, de origem judaica.

O reconhecido intelectual já havia dito que “repudiava, deplorava e rejeitava” a declaração e se referiu a Netanyahu como um “lacaio de Trump”, ao compará-lo com o falecido ex-ministro israelense Shimon Peres.

O secretário de Desenvolvimento Econômico da Cidade do México, Salomón Chertorivsky – descendente de imigrantes judeus ucranianos e poloneses – divulgou uma mensagem nas redes sociais lembrando que o México acolheu seus ancestrais, dando a eles confiança e oportunidades.

“Por estas milhares de histórias, como a da minha família (…) parece-me tão condenável o tuíte do primeiro-ministro de Israel. Não entendo que a pessoa que hoje governa um povo que sofreu a pior perseguição festeje a perseguição de outro povo, o nosso, os mexicanos”, acrescentou.

Outro funcionário do governo, Simón Levy, disse a Netanyahu através do Twitter: “Os mexicanos buscam paz e prosperidade. Como mexicano judeu lamento sua postura. Não traz paz”.

Foto: Reprodução

“Nada a ver com este senhor”

Nas ruas do elegante bairro de Polanco, lar de boa parte da comunidade judaica na capital mexicana, a reprovação ao ministro também foi sentida.

“O que Netanyahu disse foi muito pouco sensível, foi muito infeliz, levando-se em conta o que acontece no mundo. Perdeu uma grande oportunidade de ficar calado”, disse à AFP um mexicano de 53 anos que comparecia a uma sinagoga da região e que pediu para não ser identificado.

Enquanto isso, o administrador de uma loja “kosher”, que também quis permanecer anônimo, afirmou que os judeus mexicanos não têm “nada a ver com a opinião deste senhor”.

Segundo o último censo nacional de 2010, apenas 67.476 pessoas praticavam o judaísmo no México, contra mais de 92 milhões de católicos. No entanto, a comunidade judaica é muito influente.

G1