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Jovem que protestou de vestido fala sobre o preconceito que enfrenta no ITA

Reprodução/FacebookNo último sábado (15/12), o estudante Talles de Oliveira Faria se formou em um dos centros de estudos mais avançados no país, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Mas, a cerimônia não foi só entrega de diploma. No evento, o jovem usou um vestido vermelho e salto alto para protestar contra homofobia na instituição.

Ao Correio, Talles falou sobre as dificuldades em ser quem ele realmente é na carreira militar.

Leia:

“Aqui no ITA temos a Associação de LGBTs, que foi criada em 2011 devido a problemas de homofobia que ocorriam tanto dentro do alojamento da faculdade como dentro do CPOR. A organização se fortaleceu ano a ano, melhorando a convivência e o processo de aceitação dos novos alunos. Hoje é uma organização estável e ativa dentro da comunidade. Desde de 2012, usamos o dia 17 de maio (Dia Internacional contra a Homofobia) para nos manifestarmos de alguma forma no ITA, chamarmos atenção e gerar discussões envolvendo o tema. (…)


Eu sempre procuro ser bastante ativo dentro do grupo, sempre incentivando o pessoal a se aceitar e a quebrar barreiras, a não se intimidar e ter o orgulho de ser quem é. Vestir-se em drag é algo que ganhou bastante força dentro da associação devido ao seriado RuPauls Drag Race. Decidimos que iríamos de drag para o movimento no ITA no dia 18 de maio. Como sou militar, fui fardado para a aula e alguns minutos antes do evento saí da sala de aula e fui me montar. Participei do evento, tiramos fotos para postar em nossa página no Facebook. Devido a isso, em setembro foi aberta uma sindicância para averiguar o caso. (…)


No começo do quarto ano, o novo comando determinou que antes de iniciar o período letivo no ITA, que os militares deveriam fazer estágios nos Institutos militares do DCTA (Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial). No meu primeiro dia no CCA (Centro de Computação da Aeronáutica), logo após a apresentação sobre os temas do estágio, a primeira coisa que o cel. que estava fazendo a apresentação me perguntou foi se a cor do meu cabelo natural era aquela cor mesmo (estava com o cabelo loiro mais claro que a cor natural). Respondi que não. Ele então me disse para vir com o cabelo escurecido no dia seguinte. A partir daquele momento, eu já desanimei completamente de ter escolhido aquele lugar para estagiar, estava completamente desmotivado, mas precisa fazer as coisas do mesmo jeito.


O que mais me indignou é que, dentro da mesma sala, havia uma tenente com o cabelo pintado (luzes) e que, na própria sala do coronel, também ficavam duas suboficiais com os cabelos loiros (luzes). (…) Eu uso maquiagem no dia a dia, assim como várias meninas da minha turma, mas nenhuma delas jamais foi punida por algo semelhante. Com isso fiquei mais quatro dias preso. (…) Também por ser uma instituição extremamente sexista, sinto-me oprimido por querer usar maquiagem, pintar o cabelo (mesmo que de cores discretas), coisas que são permitidas a mulheres e não negadas pelo regulamento a pessoas do sexo masculino. Os militares então usam disso e mais algum erro que querem encontrar em você para que seja punido. Ser abertamente gay é dar motivação aos militares para encontrar erros em você e te punir.”

* Estagiária sob supervisão de Leonardo Cavalcanti, editor de Política e de Brasil.

Correio Braziliense