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‘O tempo está passando, e a gente ainda não se conformou’

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O pai de uma das 11 vítimas diz que a cena de ver o filho morrer nos braços da mãe não sai da cabeça. Ele espera que os culpados sejam punidos ( FOTO: KID JÚNIOR )

“O tempo está passando e a gente, até agora, ainda não se conformou com o que aconteceu. É uma coisa que a gente se pergunta ‘por quê?’. Os homens chegaram e fizeram o que quiseram”, relata o pai de uma das 11 vítimas da ‘Chacina da Messejana’, que completa um ano.

 

A dor no olhar e o embargo da voz de João (nome fictício) representam o sentimento que sobreviventes, testemunhas e parentes das vítimas da maior chacina da história de Fortaleza carregam desde a madrugada de terror do dia 12 de novembro de 2015. Como por exemplo, a moça que fugiu dos criminosos e viu quatro amigos serem mortos a metros de distância; o rapaz que sobreviveu a oito tiros, passou por várias cirurgias e convive com complicações físicas; os familiares que mudaram de residência; os outros pais e as mães que sofrem com a dor de perder um filho.

Era pouco mais de meia-noite quando o primeiro estampido foi ouvido em diversas residências localizadas na Rua Lucimar de Oliveira, no bairro Curió. A priori, os moradores acreditaram que vinha de fogos de artifício, e perceberam do que se tratava apenas minutos depois, com a sequência de tiros. Dois adolescentes foram assassinados no local e outros dois morreram a caminho do hospital.

Vinte minutos depois, a cerca de 2 km do primeiro alvo dos criminosos, a carnificina vitimou dois amigos na Rua Elza Leite de Albuquerque. Inconformados, os ‘justiceiros’ encapuzados voltaram ao local, após uma hora, para cometer mais três assassinatos sem dar direito de resposta às vítimas.

Nesse intervalo de tempo, os criminosos também espalharam sangue na Rua José Euclides Gomes e na Av. Professor José Arthur de Carvalho, onde outras duas pessoas foram mortas, de maneira idêntica às demais.

Dentre as vítimas, nove tiveram o caminho interrompido ainda na adolescência, com 16 a 19 anos vividos apenas, o que aumenta a tristeza dos pais.

“Era um menino como os outros são. Vivia dentro de casa, estudava e, no momento, não trabalhava. Ele fazia alguns ‘bicos’ para o vizinho, entregando marmita. Levava a vida como os outros vão levando”, lamenta João, com o pensamento distante, no filho que faleceu tão cedo.

Crime

João viu o filho agonizar e morrer nos braços da mãe. “Eu tava em casa. Quando eu me levantei, ele estava chamando pela mãe dele, já estava baleado. ‘Mãe, eu fui baleado’. Foi aí que nós nos alvorocemos (sic) para abrir o portão. Quando achamos a chave e saímos, ele já estava caído no chão. Ela correu, pegou ele no colo e ele acabou de morrer”, contou. A cena não sai da cabeça do pai, que afirma ter parado de trabalhar e desenvolvido doenças sérias após a morte do filho.

“A lembrança dele é toda, não me esqueço um só minuto. Tava trabalhando e me lembrando dele. E aquela cena dele bater na porta e chamar ‘mãe, eu fui baleado’ não me sai da cabeça de jeito nenhum. Eu acho que eu morrendo, ainda não sai. É dolorido receber uma cena daquela. Não é brincadeira, não”, afirma João com os olhos marejados. O assassinato do filho de João e das outras dez pessoas assombrou o Ceará e repercutiu no Brasil e no mundo.

Inicialmente, a Polícia trabalhou com três linhas de investigação do caso: a primeira tinha policiais como suspeitos, por represália à morte de um PM na noite anterior; a segunda, teria sido provocada pela prisão de um traficante, que teria ordenado a morte dos seus delatores; e a terceira, por retaliação à morte de um traficante.

Com a análise de provas técnicas como as imagens de câmeras de monitoramento da região, os dados das antenas da rede de telefonia móvel e a localização das viaturas policiais pelo sistema GPS, a investigação apontou para a primeira linha. O depoimento dos sobreviventes e das testemunhas dos crimes corroborou com as provas técnicas. Após ver o filho morrer nos braços da mãe, João observou uma conversa comprometedora. “Eu estava sentado na rua, quando os carros (dos supostos assassinos) vinham de novo. Um deles colocou a cabeça de fora do carro e já tinha uma viatura da Polícia encostada. ‘Fulano, e aí, deu tudo certo?’. ‘Deu tudo certo, tá tudo bem’. Ele falou com o policial que tava fora da viatura, de braços cruzados”.

Quase nove meses depois, 44 policiais militares tiveram a prisão preventiva decretada pela Justiça após terem sido denunciados pelo Ministério Público do Ceará (MPCE) como autores da ‘Chacina da Messejana’, e 43 deles esperam pelo julgamento presos. A única mulher do grupo está em prisão domiciliar.

João pede por justiça e pela punição dos culpados por tirarem a vida do seu filho, apesar de afirmar que nada irá diminuir a saudade. “Ficaram só as imagens e as lembranças na cabeça. Porque agora não tem mais o que fazer”, lamenta.

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Diário do Nordeste