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A miséria de pão X A miséria de espírito

A miséria de pão não é o mesmo que a miséria de espírito. A miséria de pão nos ensina a sobreviver, lutar, sair da inércia, se potencializar, no entanto ela pode ser passageira.

A miséria de espírito faz vibrar baixo, gera cegueira social, potencializa Super egos, Super eu, se estou bem o mundo também está, a miséria de espírito não gera pensamento no coletivo, apenas individualiza.  A miséria de espírito as vezes se esconde atrás de pensamentos rígidos, de fundamentalismo, de uma não metamorfose.

A miséria de pão pode provocar empatia, partilha, comunhão, aceitação e nos ensina sobre o  viver, sobreviver, sobre como viver, o deserto é a personificação de um renascimento se vivenciado de maneira positiva, como aprendizado.

A miséria de espírito trás a tona o grande monstro da indiferença. Hoje, quem sabe, não saibamos dizer ou fazer uma leitura social precisa de tudo que está ocorrendo ao nosso redor, mas estamos caminhando para algum lugar, os laços se tornam frouxos, e já não temos tanto tempo. E para sobreviver adoecemos, para sobreviver adoecemos o mundo, para sobreviver esquecemos, para sobreviver não vemos.

Em certo dia, estava no meio do carrasco, em um local que amo frequentar, afastado da cidade, cheio de pedras gigantescas, silêncio, apenas natureza, e uma pessoa que estava comigo me disse algo sobre as árvores, de que elas são os maiores exemplos de paciência e meditação, quão pequenas elas são quando brotam do chão, e quão gigantescas se tornam, elas não tem pressa, elas são silenciosas.

As incertezas que carregamos nessa pós-modernidade, assim como os padrões que nos propomos viver dentro deste modelo social, geram um não SER, nos tornamos apressados, imediatistas, e por consequência esquecemos de ver de verdade a vida, de senti-la. Apenas estamos apressados para dar conta do relatório do mês, de produzir o máximo que pudermos semanalmente, mensalmente, e a vida vai se esvaindo. Hoje, somos um grande sintoma do relógio, da tão sonhada qualidade de vida, do dinheiro que temos que ganhar.

A arte de filosofar, de refletir, repensar, rever, olhar para dentro de nós e para o mundo, poderá sim, mudar nossos rumos, nossas posturas.

Nietzsche, grande filósofo alemão, deixou escritos estupendos sobre as três metamorfoses do ser, ele descreve como ocorre o processo de libertação, e é no deserto que esse processo se dá.

O primeiro estado de espírito é comparado há um camelo, aquele que se submete, que segue valores, regra de maneira exacerbada e carrega nas costas suas agruras, sua acidez, ele se ajoelha, aquele que apenas se sujeita e obedece, carrega o fardo do dever.

A segunda metamorfose do ser é personificada no leão, que não se humilha, que almeja um ante dever, sua liberdade, ele luta, enfrenta. O camelo se torna leão, pois sabe de sua força, e se apropria dela, ele questiona, quer compreender os fenômenos internos, sociais, ele cria a liberdade para a nova criação, ele tem capacidade de filosofar e praticar, ele é revolução.

E a terceira metamorfose, é o da criança. Dar a luz o que há de mais sagrado, os desejos mais bobos, a capacidade de levar a vida com mais leveza, e que se pode rir com a verdade, não tem medo de ser julgado, não se adoece com as regras, brinca neste agora, contempla a pureza da alma. Este estado de espírito é uma frequência leve e saudável do ser.

A proposta de Nietzsche no seu livro “Assim falou Zaratustra”, era trazer a luz à necessidade de enfrentarmos nossos demônios, que podem ser projetados em nossas relações cotidianas, nesse eterno devir. Nossas metamorfoses podem ser responsáveis pelas transformações sociais, primeiro me modifico, e o mundo se modifica.

A proposta desta reflexão, é provocar inquietação. Quais camelos estamos carregando? Quais fardos são necessários carregar para incitar profundas modificações? Que verdades são incontestáveis? Onde devo ousar? Estou apreciando a vida como uma criança aprecia o Mundo ao seu redor?  minha causa é individual ou coletiva?  Cabe a nós repensar.

Lucivânia I. de Souza é Psicóloga Clínica, Especializanda em Psicanálise e pesquisadora social
Lucivânia I. de Souza é Psicóloga Clínica, Especializanda em Psicanálise e pesquisadora social