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Policiais voltaram ao local da chacina e torturaram jovem

Dez meses se passaram desde que Fortaleza viveu a maior chacina de sua história, com 11 mortos e sete feridos. Desde então, os moradores dos bairros Curió e São Miguel lutam para esquecer os momentos de pavor vividos naquela madrugada, mas essas lembranças teimam em reaparecer. Não bastasse os tormentos da mente, como angústia e o medo, as ruas ficaram estigmatizadas e ganharam nomes de algumas das vítimas.

Nelas, a cada aparição de grupos armados, o medo de que a história se repita se cristaliza no imaginário dos moradores. Esse temor eclodiu com todas as forças no jovem de 23 anos, que será chamado de Bruce (nome fictício). A noite do dia 22 de janeiro deste ano transcorria em uma aparente calma no São Miguel, Grande Messejana.

Por volta das 21 horas, três homens armados de pistola e afirmando serem policiais estavam de volta à Rua Elza Leite Albuquerque e à Travessa Francisco Guimarães. Há dois meses, o local havia sido palco de cinco das 11 mortes da Chacina da Messejana, além de invasões em residências e sessões de tortura.

A tensão aumentou quando o trio parou defronte à casa de número 1.014, onde Bruce morava, e anunciou: “Corra não, corra não, senão eu atiro. Finge que a gente é teu amigo. Se tu alarmar, a gente te mata aqui mesmo. A gente já matou um bocado aqui, um ou dois não faz diferença não”, disseram os homens.

Dos três policiais, pelo menos dois teriam participado da chacina. Os invasores queriam saber sobre o paradeiro de um homem conhecido como Robério. A mesma pergunta também havia sido feita a outros moradores que tiveram casas invadidas na madrugada do dia 12 de novembro de 2015. Alguns foram agredidos e um deles alvejado com um tiro na perna, naquela madrugada, por não dizer onde Robério estava. Bruce morava na casa onde até 12 de novembro residia Valmir Ferreira da Conceição, tio de Robério e vítima da chacina.

Valmir foi executado com tiro na nuca enquanto comprava cigarros. Além dele, morreram também no dia 12, na mesma Travessa, Jandson de Sousa, Francisco Elenildo, Patrício Pinho e Marcelo da Silva Mendes.

Bruce temia ter o mesmo fim. Por isso, mentiu aos homens sobre se conhecia Robério, conforme depoimento prestado por ele no dia 25 de janeiro na sede da Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário (CGD). Ele revelou ainda aos investigadores que um dos policiais checou seus antecedentes criminais e mesmo sem ter passagens pela Polícia foi levado à força. “Vamos dar uma voltinha para conversar”, disseram.

Os três policiais e Bruce entraram em uma caminhonete preta. Dentro do carro havia outro policial sentado no banco da frente ao lado do motorista. Esse homem teria iniciado as agressões e atingido Bruce no rosto.

O veículo seguiu por algumas ruas do bairro São Miguel, Curió e Lagoa Redonda. Ao chegar em uma horta, o jovem disse ter sido algemado e submetido a uma sessão de tortura. A pergunta era sempre a mesma: “Onde está o Robério? Ele é o patrão”.

O celular de Bruce tocou e era Robério. Moradores o avisaram de que policiais envolvidos na chacina haviam levado o rapaz. O telefonema foi atendido no viva-voz e os policiais entraram na conversa, passando a exigir R$ 10 mil para liberar o jovem. Robério teria oferecido R$ 1 mil. O acordo não foi fechado e como havia mentido sobre saber quem era Robério, os policiais decretaram a morte de Bruce. Seguiram, então, com ele em direção à Praia da Abreulândia.

Durante o trajeto, pararam em um terreno num trecho escuro da estrada. Ali, todos teriam descido. “Um policial pegou uma pá, me entregou e disse para eu cavar a minha cova”.

Depois de algum tempo cavando Bruce diz ter sido empurrado para dentro do buraco com um chute nas costas. Quando ia ser executado, o telefone tocou novamente. Era Robério. Ele teria dito aos policiais que os moradores presenciaram Bruce ser levado e atearam fogo em um ônibus em represália à ação.

O policial que havia ficado no carro diz ter ouvido no rádio sobre a ocorrência do ônibus e eles desistem da matar o rapaz. Os homens o levam de volta para o São Miguel. Em casa, Bruce liga para Robério e conta o que aconteceu. Três dias depois, os dois prestam depoimento na CGD. Os relatos fazem parte do inquérito sobre a chacina. Os homens que teriam torturado Bruce ainda não foram identificados.

Diário do Nordeste