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Olhos dos atletas, guias são criativos em busca da sintonia fina e medalhas

A célebre frase de Leonardo da Vinci, “o olho é a janela da alma, o espelho do mundo”, está por trás da sintonia fina entre o atleta e o seu guia. Com a função de ser os olhos dos competidores que não enxergam ou têm baixa visão, os atletas-guia se comunicam por comandos e frases curtas. Evitam falar muito para guardar o fôlego a fim de acompanhar o ritmo dos parceiros e ajudam nas estratégias durante as provas rumo ao topo do mundo. Alguns têm quase um papel de psicólogo, auxiliando também no equilíbrio emocional. Às vezes, precisam seguir o instinto e tomar providências em meio a imprevistos, como no colapso de Odair Santos causado por uma hipertermia (quando a temperatura do corpo supera os 40ºC). Nos Jogos Paralímpicos do Rio, a delegação brasileira conta com 14 atletas-guia, sendo um reserva.

 

Terezinha Guilhermina - atletismo 100m T11 paralimpíada rio 2016 (Foto: Reuters)
Descrição da imagem: Terezinha Guilhermina na final dos 100m T11 na Paralimpíada do Rio. Velocista defendia o seu título, quando foi desclassificada sb alegação de ter sido puxada pelo guia, Rafael Lazarini (Foto: Reuters)

– Os guias são os olhos dos atletas nas competições. Fazem com que os atletas corram ali nas linhas e certos para não invadir a raia. E (são os olhos) fora de competição também, nos treinamentos, que são ainda mais precisos. É preciso fazer um ensinamento de movimento de perna e braço, tem de ser um pouco professor, o que leva um pouco de tempo para uma pessoa que não enxerga. Você acaba ensinando os movimentos para o atleta assimilar na hora da corrida a fazer um movimento mais perfeito e correr melhor – disse o atleta-guia Guilherme Santana, que formou uma das parcerias mais vitoriosas do esporte com Terezinha Guilhermina.

Terezinha Guilhermina Mundial de atletismo (Foto: Getty Images)

Nas Paralimpíadas, os competidores são divididos em classes, de acordo com o grau de deficiência física ou intelectual. Dependendo da limitação, eles podem ser acompanhados nas provas de corrida por atletas-guias, unidos por uma cordinha. Os guias só podem orientá-los e não puxá-los, sob a pena de desclassificação. Caso alguém pise na linha, a punição é a mesma.

Foi assim na final dos 400m do Mundial de Doha, no Catar, no ano passado. O carioca Felipe Gomesperdeu o título pela classe T11 (cego total) quando o guia Jorge Pereira Borges cometeu a infração em uma curva, levando o juiz a erguer a bandeira para sinalizar a eliminação.

Daniel Mendes, que havia cruzado a linha de chegada em segundo lugar, sagrou-se campeão. Momentos antes, o capixaba de Nova Venécia havia sido desclassificado devido a um protesto de França e Espanha. A alegação era a de que ele teria terminado a disputa a uma distância superior a 5m em relação ao guia, no entanto, o recurso foi negado e ele ficou com o título. O espanhol Gerard Puigdevall levou a prata, e o francês Timothee Adolphe completou o pódio.

Após sofrer punição e perder título nos 400m, Felipe Gomes comemorou muito o ouro nos 200m T11 do Mundial (Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB)

PARCERIA DENTRO E FORA DAS PISTAS

Odair Santos, prata 5.000m atletismo Paralimpíada (Foto: Reuters)

Se houver revezamento de guias em uma disputa de longa distância, como nos 5.000m, apenas o atleta ganha a medalha. Medalhista de prata da prova pela classe T11, Odair Santos optou por usar dois, apesar de estar sempre acompanhado de Carlos Antonio dos Santos, o Bira. Eles passam tanto tempo juntos que criaram uma forte relação de amizade fora das pistas, juntos não só nos treinos, como em outros programas e churrascos entre amigos.

– Normalmente, estou sempre com o Odair. Em Toronto, fomos desclassificados porque estava marcado dois guias e corremos com um. Desta vez, optamos por dois guias pois estou voltando de lesão, fiz uma cirurgia em janeiro e queremos dar mais confiança ao Odair. O joelho ainda está meio inchado, mas está dando para correr e isso me deixa muito feliz. Não ganhamos medalhas no revezamento, mas, optamos por ficar sem medalha para dar mais conforto ao Odair – contou Bira, parceiro de Odair desde Pequim 2008.

No ano passado, eles viveram um momento dramático no Mundial. Odair sofreu uma hipertermia provocada pelas altas temperaturas em Doha e entrou em colapso em plena final dos 5.000m. O paulista de Limeira liderava a prova com folga quando passou mal, ficou inconsciente e sofreu três quedas na pista. O guia o carregou até a linha de chegada. Mesmo sabendo que atitude renderia a eliminação da dupla, Bira ouviu o coração e fez o que imaginou ser o desejo de Odair. Sem condições de andar, o corredor foi direto foi encaminhado para o hospital em uma cadeira de rodas, mas se recuperou e voltou ao Qatar Sports Club para ser campeão nos 1.500m.

Odair Santos mundial paralímpico atletismo (Foto: Marcio Rodrigues/MPIX/CPB)

– Me perguntaram porque eu o levei até a chegada. Eu fiz o que eu pensei que ele queria o que eu fizesse se estivesse no lugar dele. Era o que eu gostaria que fizessem comigo também. Mesmo se eu estiver sozinho e cansado, quero completar. Fiz de tudo para ele chegar. Sabia que ele estava com dificuldade, e o levei. Não estava errado o pensamento – analisou Bira.

Na próxima segunda-feira, Odair volta a competir na final dos 1.500m T11. Atual campeão mundial da prova e prata nos Jogos de Londres 2012, o brasileiro é favorito para, enfim, subir ao topo do pódio paralímpico pela primeira vez na carreira. Ele foi prata nos 5.000m em Atenas 2004 e bronze em Pequim 2008, pela classe T12 (atletas com baixa visão). Desde 2010, ele perdeu a visão completa por conta de uma retinose pigmentar, que começou a afetá-lo aos nove anos.

Após sofrer colapso com hipertermia, Odair Santos domina 1.500 T11 e conquista o oitavo ouro em Mundiais (Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB)
Descrição da imagem: Após drama da hipertermia que o deixou inconsciente, Odair Santos ergue os braços ao lado de Bira para comemorar o retorno com ouro nos 1.500 em Doha, no Catar (Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB)

GUIAS GANHAM MEDALHAS HÁ CINCO ANOS

Atletas e guias precisam buscar a sintonia como a de um casamento. Passam boa parte da vida juntos, em treinos e competições. Embora o trabalho seja em equipe, os guias só começaram a subir ao pódio e a conquistar medalhas no Parapan de Guadalajara, no México, em 2011. Antes da organização reconhecer o esforço dos guias com uma medalha, alguns acabavam recebendo o símbolo de presente, como fazia Terezinha Guilhermina fazia com Guilherme Santana ao longo de cinco anos em que estiveram juntos.

Terezinha Guilhermina e Guilherme Soares 100m paralimpíadas (Foto: EFE)
Descrição da imagem: Terezinha Guilhermina aplaude Guilherme após ouro nos 100m em Londres 2012. Guia usa venda da velocista cega como forma de homenagem (Foto: EFE)

PSICOLOGIA COMO DIFERENCIAL

Jerusa dos Santos, paratleta, paralimpíada (Foto: Comitê Paralímpico Brasileiro / Divulgação)

Atualmente, Guilherme auxilia outra corredora, Jerusa Santos, rival de Terezinha. A dupla ficou fora da final dos 100m pela classe T11, contudo, ainda disputa uma medalha nos 200m. A ex-parceira foi desclassificada sob a alegação de ter sido puxada pelo guia e ficou sem o pódio nos 100m. A britânica Libby Clegg ficou em primeiro lugar, e as chinesas Guohua Zhou e a atual campeã mundial Cuiqing Liu terminaram em segundo e terceiro, respectivamente. Para Santana, saber trabalhar o emocional faz o competidor ir ao limite.

– O guia também um papel de psicólogo. Trabalha a motivação. Eu adoro fazer isso, deixar o atleta lá em cima. Fazer com que o atleta acredite nele e se posicione de uma maneira que consiga vencer e passar barreiras. E trabalhar o emocional do atleta é um diferencial, pois faz com que o atleta acredite em si e consiga vencer. Eu sou este tipo de pessoa, que gosta de trabalhar bem mais motivação, do que a técnica propriamente – afirmou o atleta-guia, dono de duas medalhas em Paralimpíadas e oito em Mundiais.

Guilherme e Jerusa voltam à pista do Estádio Olímpico nesta segunda-feira nos 200m T11. As baterias classificatórias começam às 11h26, pelo horário de Brasília. Terezinha, atual campeã nos 100m e nos 200m, ao lado do ex-parceiro, defende o seu título na Rio 2016. Maior medalhista brasileira da história em Mundiais, com 17 pódios, sendo 13 ouros e quatro pratas, a velocista optou por usar dois guias na Rio 2016,  Rafael Lazarini e Rodrigo Chieregatto. Nos 100m,Terezinha foi desclassificada da prova vencida pela britânica Libby Clegg.

Ricardo Costa de Oliveira comemora ouro na Paralimpíada (Foto: Reuters)

Primeiro medalhista de ouro do Brasil nas Paralimpíadas do Rio, no salto em distância T11, Ricardo Costa adotou o mistério como estratégia. Cego por conta da Doença de Stargardt, que causa perda da visão de forma degenerativa, o sul-mato-grossense de Três Lagoas saltou os 6m52 no escuro e fez história.

– Meus guias são auxiliados por mim para ficarmos concentrados com a prova. Meu guia falou: “Ricardo, você está em segundo agora”. Não fala quanto eu saltei, contra quem eu estava disputando. Esse era meu objetivo, até para mostrar que brasileiro não entende só de futebol – contou o saltador de 34 anos, campeão logo em sua estreia nos Jogos.

– Conversamos com o Everaldo (treinador) e combinamos de não falar qual era a marca. Ele me perguntava toda hora: “Alguém me passou?”. Eu disse: “É o último salto, vamos para cima”. Não contamos nada. Ele ouviu, mas não afirmamos isso. No quinto salto, ele saiu para o lado e quase caiu fora da caixa de areia. Ajustamos isso com o treinador de saltos dele. No último, conseguiu bater o recorde brasileiro e ser campeão. Treinamos juntos todos os dias e ajudo ele em tudo: salto, corrida, entrada dos saltos… Mas o treinador que ajusta as marcas, a postura da corrida, como entrar na tábua. Eu sou mais da corrida e pirometria (medição de temperaturas altas) – revelou o guia, Célio Miguel da Silva.

A irmã de Ricardo, Silvânia Costa, também cega e atual campeã mundial do salto em distância T11 também representa o país no Rio de Janeiro, no dia 16, sexta-feira.

Ricardo Costa de Oliveira leva ouro na Paralimpíada (Foto: Washington Alves/MPIX/CPB)
Descrição da imagem: Ricardo Costa crava marca de 6m52, salto que lhe rendeu ouro (Foto: Washington Alves/MPIX/CPB)

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